Resenha: A paix√£o de Cristo, de Mel Gibson

Palavras-chaves: Jesus Cristo, paix√£o, sofrimento, catolicismo, Mel Gibson

Key-words: Jesus Christ, passion, suffering, Catholicism, Mel Gibson

Abstract: Review of Mel Gibson's "The Passion of the Christ".

Obra resenhada: GIBSON, Mel. A Paix√£o de Cristo (The Passion of the Christ. Estados Unidos: Icon Productions/Marquis Films Ltd., 2004.

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Com muita curiosidade, acompanhei as candentes discuss√Ķes, coment√°rios entusiasmados (pr√≥ e contra) e as acesas pol√™micas a respeito de The Passion of the Christ ("A Paix√£o de Cristo"), produ√ß√£o independente do laureado ator Mel Gibson. Depois finalmente tive oportunidade de ver o t√£o falado filme. Por isso, arrisco, mesmo n√£o sendo cr√≠tico de cinema, nem especialista em Novo Testamento, a emitir minhas opini√Ķes, impress√Ķes e coment√°rios a respeito.

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Por um lado, A Paix√£o de Cristo √© apenas mais um filme a respeito da vida de Jesus. Por outro lado, um filme √ļnico, simplesmente √≠mpar. De fato, seria interessante apresentar uma compara√ß√£o cr√≠tica entre filmes anteriores sobre Jesus e o de Mel Gibson. Nos primeiros filmes sobre Jesus, produzidos no in√≠cio do s√©culo XX, sequer era mostrado o rosto do ator que interpretava o papel principal, decerto por excesso de pudor por parte dos diretores da √©poca. Tal excesso de pudor chegava √†s raias do docetismo, por sua recusa (ing√™nua) em apresentar o rosto de Jesus. Mais tarde, alguns filmes se tornaram famosos, como Rei dos Reis (EUA, 1961) e O Evangelho Segundo S√£o Mateus (It√°lia, 1964) do diretor italiano marxista Pier Paolo Pasolini. Uma mudan√ßa tremenda j√° ser√° percebida em filmes como Godspell e Jesus Christ Superstar, (ambos produzidos nos EUA em 1973), os quais rompem com uma vis√£o tradicional a respeito de Jesus. Jesus de Nazar√© (1977), superprodu√ß√£o de Franco Zefirelli, retoma uma apresenta√ß√£o cl√°ssica a respeito de Jesus. Este filme teve um grande elenco, tendo Robert Powell no papel principal, com interpreta√ß√£o magn√≠fica. A vis√£o cinematogr√°fica cr√≠tica e acan√īnica sobre Jesus volta com for√ßa em A √ļltima tenta√ß√£o de Cristo (EUA, 1988), de Martin Scorcese, com o competente William Dafoe no papel principal. O filme de Mel Gibson, por um lado, se alinha com cl√°ssicos do estilo filme de Zefirelli. Por outro lado, como dito h√° pouco, √© um filme √ļnico.

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A come√ßar pelas inova√ß√Ķes introduzidas por Gibson: o filme √© todo falado em aramaico e latim. N√£o √© dif√≠cil imaginar o trabalho que os atores tiveram nas grava√ß√Ķes. Vendo o filme, fica n√≠tido que n√£o √© preciso saber aramaico para perceber, pela entona√ß√£o e pela lentid√£o da pron√ļncia, que nenhum ator √© falante nativo da antiga l√≠ngua prima-irm√£ do hebraico, hoje praticamente morta (s√≥ se fala aramaico hoje em algumas remotas vilas da S√≠ria e nas liturgias de algumas igrejas orientais). N√£o obstante, com esta exig√™ncia, Gibson resgata com originalidade um aspecto importante da hist√≥ria. Particularmente fiquei satisfeito ao conseguir entender de vez em quando uma ou outra palavra, tanto em aramaico (no caso, palavras que s√£o as mesmas em hebraico, como malkuth, reino, tsadiq, justo, mishpat, julgamento, Kephah, Cefas [Pedro], al√©m da √≥bvia amem) como tamb√©m em latim (algumas exclama√ß√Ķes de espantados soldados romanos diante da flagela√ß√£o de Jesus: robustissimum est!, √© fort√≠ssimo!, credere non posso - resistentia sua es incredibile! N√£o posso acreditar - sua resist√™ncia √© incr√≠vel!, rex verminorum, rei dos vermes, al√©m de um sonoro e √≥bvio idiota, e do cl√°ssico ecce homo!, eis o homem dito por Pilatos em refer√™ncia a Jesus, cf. Jo 19:5). Mas h√° algumas falhas: √© extremamente improv√°vel que Jesus tivesse dialogado com Pilatos em latim, como o filme apresenta. O mais l√≥gico √© que tal di√°logo tivesse acontecido em grego koin√©, a "l√≠ngua franca" do mundo mediterr√Ęneo da √©poca.

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Outra inova√ß√£o a meu ver interessante por demais √© o diabo completamente andr√≥gino - n√£o d√° para saber se quem o interpreta √© homem ou mulher, trajando uma veste que faz lembrar o Imperador, aquele do "lado negro da for√ßa" da s√©rie "Guerra nas Estrelas", (Star Wars). H√° que se reconhecer, no entanto, o √≥bvio: em nenhum evangelho can√īnico o diabo aparece tanto nas narrativas da Paix√£o. Mesmo assim, achei sensacional a cena em que, ap√≥s a morte de Jesus, o diabo grita em completo e absoluto desespero, ao finalmente perceber que, a aparente derrota de Jesus, na verdade foi uma vit√≥ria!

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O filme segue o roteiro dos evangelhos. Ali√°s, Gibson pula de um evangelho para o outro com muita habilidade e destreza. Isto se constitui, a meu ver, a um s√≥ tempo, em virtude e fraqueza. Pois n√£o h√° um √ļnico relato sobre Jesus nas Escrituras. Sabemos que os evangelhos apresentam a narrativa da paix√£o com diferentes estruturas liter√°rias, a partir de diferentes pontos de vista, diferentes perspectivas e com diferentes prop√≥sitos teol√≥gicos. Por isso, √© muito dif√≠cil, qui√ß√° imposs√≠vel, apresentar uma cronologia absolutamente exata dos √ļltimos acontecimentos da vida terrena de Jesus. Apesar desta dificuldade, Gibson apresenta muito bem relatos que s√≥ aparecem em um evangelho, como por exemplo, Jesus curando a orelha do servo do sumo sacerdote (Lc 22:51 - os demais evangelhos n√£o mencionam a cura, s√≥ o fato de Pedro ter ferido o homem), a advert√™ncia da mulher de Pilatos ao seu marido, aconselhando-o a n√£o se envolver com um acusado justo (Mt 27:19), Jesus levado a Herodes (Lc 23:8-12). Mas algumas omiss√Ķes s√£o muito estranhas: n√£o entendi as op√ß√Ķes de Gibson em deixar de fora de seu filme eventos importantes, que tiveram influ√™ncia direta na morte de Jesus, como por exemplo, o ataque de Jesus aos cambistas e vendedores dos √°trios externos do Templo (Marcos 11:15-18) ou a expectativa popular que se criou em torno da possibilidade de Jesus restaurar a monarquia israelita (Jo√£o 6:1-15). H√° v√°rias cenas em flashback no filme (como por exemplo, uma cena do Serm√£o da Montanha). Pelo menos a cena da expuls√£o dos vendilh√Ķes do Templo poderia ter aparecido em flashback. Em linhas gerais, o filme de Gibson segue a seq√ľ√™ncia do evangelho de Jo√£o. Possivelmente especialistas em Novo Testamento apresentar√£o cr√≠ticas √† harmonia dos evangelhos proposta por Gibson. Mas Gibson fez um filme, n√£o um tratado teol√≥gico.

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Lembro-me no filme de alguns momentos que n√£o constam dos evangelhos can√īnicos: a seq√ľ√™ncia em que Cl√°udia, mulher de Pilatos, entrega uma toalha a Maria, m√£e de Jesus, que a utiliza para enxugar o sangue que o filho derramou quando foi flagelado (antes da crucifica√ß√£o), o epis√≥dio em que Ver√īnica enxuga o rosto de Jesus na Via Dolorosa (cena que, conquanto tradicional e muito conhecida da piedade popular cat√≥lico-romana, √© ausente do relato b√≠blico - na verdade, o mito de Ver√īnica foi cunhado na Idade M√©dia. O pr√≥prio nome "Ver√īnica" √© um nome h√≠brido, composto pelo latim "vero", verdadeiro, e o grego "ikon", imagem; a "imagem verdadeira" teria sido a imagem de Jesus impressa como um carimbo de sangue na toalha), as duas Marias (a m√£e de Jesus e Madalena) e Jo√£o acompanhando na casa de Caif√°s o julgamento de Jesus, o momento em que um corvo (t√≠pica ave de mau agouro em culturas do norte-atl√Ęntico) bica os olhos do ladr√£o impenitente. Talvez a mais estranha cena n√£o b√≠blica no filme de Gibson seja a que mostra Judas Iscariotes correndo em desespero, perseguido por uma multid√£o de meninos apresentados como pequenos dem√īnios - isto definitivamente n√£o tem nada a ver com textos b√≠blicos t√£o preciosos como Marcos 10:14. Outra cena presente no filme, mas ausente dos relatos b√≠blicos, √© o terremoto que, no momento em que Jesus expira, faz rachar o pr√≥prio templo, quando, √† luz do relato neotestament√°rio, foi o v√©u que se rasgou, n√£o o templo (cf. Marcos 15:38).

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Mas A Paix√£o de Cristo retrata com fidelidade, entre tantos relatos dos evangelhos, o sadismo dos soldados romanos, a fraqueza de Pilatos (que tem poder, mas se rende √† press√£o dos l√≠deres do Templo), o medo de Pedro, a ang√ļstia de Maria diante dos sofrimentos intensos aos quais o filho era submetido (mas quanto a isso, como protestante, n√£o posso deixar de tecer cr√≠tica a Gibson: v√°rias vezes o filme mostra a face triste, expressando ang√ļstia de Maria. Com a sua insist√™ncia em mostrar quase o tempo todo Maria angustiada, acompanhando o sofrimento do filho, n√£o estaria Gibson apresentando a velha no√ß√£o teol√≥gica romana de Maria Virgo, mater dolorosa ["Virgem Maria, m√£e de dores"]?? Esta quase ubiq√ľidade de Maria acompanhando o sofrimento de Jesus n√£o consta de nenhum evangelho can√īnico. Outra cr√≠tica que te√ßo √† super√™nfase mariana de Gibson est√° no fato que, no filme, quando Jesus √© preso, um disc√≠pulo corre para avisar Maria o que acontecera. Esta simples e candidamente diz: "come√ßou". N√£o h√° base escritur√≠stica, e nem sequer no senso comum para isso. Qualquer m√£e do mundo se desesperaria ao saber que seu filho foi preso e est√° para ser torturado), a ajuda que Sim√£o Cirineu d√° a Jesus, a princ√≠pio compuls√≥ria, mas depois, volunt√°ria, a fidelidade do disc√≠pulo amado (tradicionalmente identificado com Jo√£o, autor do quarto evangelho), o √ļnico a n√£o debandar e permanecer junto com o Mestre at√© o fim. Mas sem d√ļvida, o auge do filme est√° nas longas (e assustadoras) seq√ľ√™ncias da flagela√ß√£o, do carregar da cruz, e da crucifica√ß√£o propriamente. Nunca jamais houve tamanho realismo em filmes sobre Jesus. A dor que Jesus suportou foi mostrada de maneira impressionante, a um ponto t√£o convincente que ser√° dif√≠cil ver o filme sem se espantar, sem se chocar e mesmo sem chorar com a crueldade extrema dos supl√≠cios impostos ao Senhor. Jim Caviezel (JC - coincid√™ncia?), conhecido por seu trabalho em O Conde de Monte Cristo (2002), com lentes de contato castanhas (Jesus de olhos azuis, como Robert Powell no filme de Zefirelli, n√£o tem nada a ver), a meu ver, se houve bem interpretando o papel de Jesus.

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Vendo o filme, √© f√°cil perceber que Mel Gibson √© cat√≥lico romano. O sofrimento de Jesus √© apresentado conforme o tradicional roteiro das esta√ß√Ķes da Paix√£o, t√≠pico da devocionalidade popular romana. Nem sempre o roteiro da Via Sacra √© absolutamente fiel ao relato dos evangelhos can√īnicos. Outra evid√™ncia do romanismo de Gibson est√° quando Pedro, desesperado por ter negado a Jesus se encontra com Maria, a chama de "m√£e", e se recusa a receber o carinho, dizendo n√£o ser digno, por ter negado conhecer o Mestre - n√£o h√° nos evangelhos can√īnicos nada que diga que os ap√≥stolos chamassem Maria de "m√£e". Mas Gibson, mesmo cat√≥lico romano tradicionalista, se cont√©m algumas vezes: no in√≠cio do filme, no Jardim do Gets√™mani, tentado pelo diabo, Jesus pisa na cabe√ßa de uma serpente (√≥bvia evoca√ß√£o de G√™nesis 3:15), indo contra a interpreta√ß√£o romana da passagem que entende que seria Maria a pisar na cobra - h√° v√°rias est√°tuas de Maria que a representam com uma serpente a seus p√©s.

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Que influências Gibson recebeu no processo de construção de seu filme? Decerto, várias. A mim ficou a impressão que uma delas foi o quadro "Cristo carregando a cruz",(1) de Hyeronimous Bosch, pintor flamengo do século XV. Uma cena logo no início do filme, quando Jesus está sendo julgado pelo Sinédrio, faz lembrar muito o quadro de Bosch. Parece-me também que Gibson deve ter lido "Operação Cavalo de Tróia", ficção do espanhol J. J. Benitez sobre um oficial da Força Aérea Norte Americana que participa de um projeto ultra-secreto, que o conduz em uma viagem no tempo até os dias de Jesus. Benitez descreve com detalhes, por exemplo, os erros do processo judiciário de Jesus no Sinédrio, a flagelação, a fraqueza de Pilatos. O filme parece seguir o roteiro de Benitez. Mas, como disse, é apenas uma impressão que tive. Não posso afirmar categoricamente que Gibson tenha mesmo lido e seguido Benitez.

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Resumindo: muito ainda poderia ser dito a respeito do filme. Talvez eu o fa√ßa em outra ocasi√£o. H√° diversas possibilidades de leituras do filme. Por enquanto, creio que √© suficiente apresentar o filme como bem feito, mas n√£o infal√≠vel. Como visto, em A Paix√£o de Cristo por v√°rias vezes Gibson n√£o foi absolutamente fiel aos relatos can√īnicos. Mas √© ineg√°vel que o filme tem m√©ritos. O principal deles a meu ver √© provocar debates em praticamente todo o mundo. Crist√£os poder√£o ver o filme com seus amigos, e compartilhar sua f√© dizendo: "Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras" (1 Cor√≠ntios 15:3).

 

 

Notas


* Pastor da Igreja Presbiteriana do Brasil. Doutor em ciências da religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

1 http://www.artchive.com/artchive/B/bosch/carrying.jpg.html. Acesso em 30 de novembro de 2004.